O novo ataque do PT à democracia, a queda de Rui e Wagner e as pedaladas de Jerônimo

ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias Crédito: Reprodução

O PT baiano parece ter decidido trocar o discurso de paladino da democracia pela judicialização do debate político. De um lado, mira o ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias, que declarou voto em Lula e ACM Neto. De outro, aciona o deputado estadual Leandro de Jesus (PL) por exercer o papel de fiscalização, uma das funções mais elementares da oposição. Na prática, a mensagem que fica é de intimidação. Em vez de responder no campo político, tenta levar o embate para os tribunais. É um péssimo sinal para quem passou anos se apresentando como guardião das liberdades democráticas. Num país já marcado pela excessiva judicialização da política, recorrer à Justiça como instrumento de enfrentamento contra adversários apenas reforça a percepção de intolerância ao contraditório e de tentativa de constranger vozes divergentes.

Nos bastidores, há quem faça um alerta ao próprio PT: a ofensiva contra Tiago Dias pode produzir um efeito político indesejado. O ex-prefeito é declaradamente apoiador de Lula, mas rejeita apoiar Jerônimo. Ao transformar esse grupo em alvo, o partido corre o risco de ampliar o desgaste junto a um eleitorado que continua lulista, mas demonstra crescente insatisfação com a gestão estadual. Em outras palavras, na tentativa de defender Jerônimo, o PT da Bahia pode acabar afastando votos que, até aqui, permaneciam com Lula.

Pedal orçamentário

O Tribunal de Contas do Estado (TCE) aprovou ontem, com ressalvas, as contas de 2025 do governador Jerônimo, mas enfatizou que a gestão do petista tem se movido à base de um verdadeiro "pedal orçamentário”. É que Jerônimo tem usado indiscriminadamente o expediente das Despesas de Exercícios Anteriores (DEA), criadas para situações extraordinárias, como método de governança. Elas passaram de R$ 1,1 bilhão em 2023 para R$ 2,4 bilhões em 2025, dos quais R$ 1,8 bilhão correspondia a despesas que já eram conhecidas em 2024 e deveriam ter sido empenhadas no exercício correto. A manobra, leia-se pedalada, gerou uma subavaliação de pelo menos R$ 1,5 bilhão nos Restos a Pagar.

Defasagem

No mesmo parecer, o TCE apontou que a Bahia fechou 2025 com apenas 37.442 policiais, o equivalente a um agente para cada 397 habitantes. A defasagem alcança 32,49% na Polícia Militar, com falta de 15.332 policiais; 50,72% na Polícia Civil; e 38,95% no Corpo de Bombeiros. Como se não bastasse, 1.058 policiais militares seguem cedidos a outros órgãos, um aumento de 7,19% justamente quando o efetivo nas ruas nunca fez tanta falta. Nunca é demais lembrar que o vice-governador Geraldo Júnior (MDB) tem cerca de 40 policiais à disposição para sua proteção particular.

Dor de cabeça

A mais recente pesquisa Quaest trouxe muita dor de cabeça para o grupo governista da Bahia, embora alguns tenham comemorado publicamente o resultado. Assustou o grupo de Jerônimo, Rui e Wagner o fato de o desejo de mudança ter chegado a 76% e a avaliação positiva do governador seguir baixa. Mas o pior de tudo foi a queda dos candidatos a senador. Tanto Rui Costa quanto Jaques Wagner registraram redução nos percentuais. Rui teve uma queda de 2 pontos percentuais, mas a diminuição de Wagner foi o que assustou: 6 pontos percentuais. A percepção de que o Galego pode dragar o time só eleva o desgaste de uma relação já balançada com o Correria.

Chateado

Por falar no ex-ministro, Rui Costa anda cada vez mais furioso com seus próprios aliados. A pessoas próximas, Rui tem feito queixas diárias contra o que considera erros da gestão de Jerônimo e com o "poder" do secretário de Relações Institucionais, Adolpho Loyola, e do pré-candidato a deputado federal Lucas Reis, aliado próximo de Wagner. Para o Rui, o poder concentrado pela dupla é danoso para o grupo. E, além de tudo, tem se queixado bastante dos candidatos a deputado, dizendo que não estão vestindo a camisa do grupo. Alguns até chamam de traíra. Talvez isso explique a irritação constante do petista.

Terapia

É cada vez mais comum ouvir nos bastidores da política baiana a avaliação de que Rui Costa anda precisando de uma boa terapia para atravessar a campanha sem explodir. A decisão de fazer campanha colado com Jaques só gerou transtornos até aqui, uma vez que ele não consegue esconder o incômodo com os pepinos policialescos do correligionário e já não faz distinção entre adversários e aliados na hora de soltar o verbo. Dizem que o pavio anda cada vez mais curto.

Defensores da fila

O governador Jerônimo Rodrigues e seus aliados ficaram profundamente incomodados e passaram a atacar a proposta de ACM Neto para reduzir a fila da regulação, denominada de programa Pix Saúde. A proposta consiste em comprar vagas na rede privada para pessoas que precisam de atendimento urgente e a rede pública não tem disponibilidade. As críticas beiram o absurdo. Primeiro, porque Jerônimo, que prometeu acabar com a fila da regulação em 2022, é incapaz de apresentar propostas para ao menos reduzir o problema, que só se agravou nos últimos quatro anos. Segundo porque, ao criticarem a proposta de maneira tão incisiva, os governistas parecem querer manter a regulação no modelo atual, que claramente não funciona e causa sofrimento a milhares de pessoas que aguardam atendimento. No fim, a ordem de atacar a todo custo passou uma péssima impressão porque escanteou o debate sério que, nesse caso, custa a vida dos baianos.

A volta dos que não foram

Alguns prefeitos que, oficialmente, haviam decidido aderir à base de Jerônimo, seduzidos pelas promessas do petista, andam insatisfeitos e reclamando da falta de compromisso do governador e de seus aliados. Uma parte deles cogita migrar para a candidatura de ACM Neto, que deve inclusive ganhar novas adesões nos próximos dias, enquanto outro grupo já avisou que até avalia ficar com Jerônimo, mas a dedicação à campanha será "no mesmo ritmo da entrega das obras".

Fonte: Correio 24 Horas

ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias Crédito: Reprodução

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