A lei 10216 só foi aprovada em 2001, quando os movimentos sociais, de trabalhadores em saúde mental, familiares e usuários, especialmente a Rede interlutas da luta antimanicomial e o Movimento da Luta antimanicomial, pressionaram os parlamentares, por mais de dez anos. Segundo as autoras Passos e Pereira, que, na publicação de 2017, resgatando o lema “Por uma sociedade sem manicômios”, disse: “Vincula-se necessariamente à luta pela transformação societária anticapitalista, não podendo, neste percurso, abdicar de uma luta contra o machismo e o racismo
Em “Nem loucas, nem criminosas”, Ingrid Farias faz questão de destacar que estas lutas sociais se deram a partir do protagonismo feminino. Segundo ela, foi graças à iniciativa de mulheres que acompanhavam filhos ou maridos nas instituições psiquiátricas, que houve mudanças efetivas no sistema.
No momento os investimentos do Ministério da saúde para ampliar cuidados, serviços, qualificar e fixar profissionais da Rede de Atenção psicossocial não estão acompanhando a demanda da sociedade.
Em Jacobina e Mirangaba tive a honra de participar da implantação dos quatro caps, tendo feito os projetos técnicos, atuado como diretor, como terapeuta comunitário, mentaleiro e vendo algumas equipes passarem por estes territórios.
As mulheres, desde a solicitação da querida amiga, enfermeira Laura Emanuela, secretária da saúde de Jacobina quando iniciamos o projeto do Caps II, a Ana Cristina, secretária da saúde de Mirangaba, quando solicitou que implantasse o ambulatório de atenção psicossocial em Mirangaba em 2006, a todas as queridas amigas, citando aquelas de primeiro momento: Dona Sonia Libório, Aline Cecília, Mabel Jansen, Denise Castro, as psiquiatras, psicólogas, oficineiras, técnicas de enfermagem, recepcionistas, cozinheiras, auxiliares de serviços gerais, todas, incluindo as cuidadoras, as mães, foram o suporte dos Caps desde o início.
Atualmente com três Caps em Jacobina e no Caps de Mirangaba, a maioria das profissionais são mulheres. A grande maioria das cuidadoras também são mulheres. O estigma do “louco agressor”, “violento”, onde mulher não pode atuar, cai por terra diante das nossas equipes. Quem acolhe os usuários, mesmo no Caps AD, são mulheres. Nossas enfermeiras, assistentes sociais, psicólogas, técnicas de enfermagem e duas médicas, estão na linha de frente todos os dias.
O protocolo de atenção ao usuário em crise pelo MS é claro: crise psiquiátrica? SAMU/UPA, mesmo em paciente admitido no Caps, por algo simples e lógico; necessidade de ambiente hospitalar. Numa crise a primeira intenção é salvar a vida. Mesmo nestes lugares, as mulheres estão na linha de frente.
Existe pessoa boa e pessoa má, indiferente de gênero, classe social, religião e profissão. Em saúde mental precisamos de pessoas de boa índole, implicadas e que se relacione bem com seus problemas e o dos outros. Em geral, as mulheres têm este perfil e são mais acolhedoras e implicadas que os homens.
Agradeço a Deus a oportunidade que tive de participar por mais de vinte anos desse processo de construção social que ainda não está pronto, mas, ao menos, já começando a conscientizar a população do seu papel no cuidado com a pessoa com algum sofrimento psíquico, não sendo os CAPS lugares de moradia dos usuários, mas, de diagnóstico, estabilização, convivência, e, na alta, de suporte matricial para cuidado no seu território, junto a família e comunidade.
Fonte: Jacobina 24 Horas
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