Três traficantes disputam controle na Ilha de Itaparica, aterrorizam moradores e espantam turistas

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O ar bucólico não é mais o mesmo de antes. Para muitos, não existe mais. A área de 146 km² da Ilha de Itaparica, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), antes exclusiva de nativos e veranistas, atualmente está tomada pelo medo, por três facções que disputam o controle do tráfico de drogas na região.

Entre as ocorrências estão execuções, roubos e ameaças em uma região formada pelos municípios de Vera Cruz — que registra 20 homicídios este ano — e Itaparica, com um saldo de oito assassinatos. Em todo ano passado, foram 30 homicídios em Vera Cruz e outros 10 em Itaparica, dos 690 registrados em toda a RMS. 

Em Vera Cruz, Sulemir Lima Estrela, o Mica, ligado à facção Caveira, luta para não perder o território para o rival Adilson Santana Silva, que detém bocas de fumo de Itaparica e integra o Bonde do Maluco (BDM). Nessa guerra, Billy, da Katiara, atuante na região da praia de Tairu, em Vera Cruz, aproveita as baixas nos exércitos das outras duas facções para ampliar seu domínio.

A última morte registrada na região foi de Felipe da Silva Santana Luzia, 21 anos, no último domingo (24). Segundo a polícia, ele era um dos soldados de Mica e foi morto após abrir fogo contra PMs. Mas na disputa entre Caveira e BDM, Joelson Silva dos Santos, 19, Caíque de Jesus Silva, 18, e seu irmão, Paulo Henrique, 14, foram executados em 11 de maio, em Vera Cruz, região cobiçada por Adilson, apontado como o mandante das execuções.
Adílson: moradores expulsos

Uma das lideranças da BDM, Adilson Santana Silva controla o tráfico na Gameleira, Bom Despacho, além das Urbis de Baixo e de Cima, mas sua fortaleza é o bairro de Marcelino, que fica numa região de morros, atrás do mercado Bompreço de Itaparica. “O local é bem vigiado. Quando a gente passa, já tem olheiros avisando”, disse um agente do Serviço de Investigação da 19ª Delegacia (Itaparica). Segundo ele, a segurança é feita por homens armados até de metralhadoras. “Eles têm armas de grosso calibre e de longa distância”, citou. 

Ele conta que em outubro de 2013, junto com outro agente, tentou prender Adilson no local. “Ele estava com mandado em aberto por tráfico e homicídio. Estávamos numa mata quando ele atirou contra nós. O colega foi atingido no rosto e socorrido pelo helicóptero da PM para Salvador”.

Um mês depois, Adilson se apresentou com um advogado na delegacia, e foi preso. Encaminhado ao Presídio Salvador, cumpriu pena até o dia 4 de dezembro de 2015, quando um juiz lhe concedeu um habeas corpus, segundo a Secretaria estadual da Administração Penitenciária (Seap). 

“Quando saiu, ele comandou pessoalmente quatro execuções. Mas investigamos o envolvimento dele em pelo menos 30 homicídios, dos quais alguns já viraram inquéritos”, afirma o investigador. Os demais casos esbarram em falta de provas, principalmente testemunhais, porque “raramente alguém tem a coragem de depor contra o traficante”, completa o policial.

Adilson nasceu na Juerana, em Vera Cruz, e fez carreira no crime. Quando menino, vendia drogas na beira da estrada. Aos 14 anos, já participava de bondes – quando o grupo saía para fazer um ataque –, e um ano depois já era uma das lideranças. “Quando o chefe do bando foi morto por uma quadrilha, ele tinha 18 anos e tornou-se o patrão do Marcelino”, contou o agente.

Segundo o delegado Lúcio Ubirecê, da 19ª Delegacia, as armas usadas pela quadrilha de Adilson vêm de Salvador. “A facção deles é abastecida por criminosos da Liberdade e São Caetano, por exemplo”. A quadrilha também usa armas artesanais, oriundas de Feira de Santana. Em uma das imagens divulgadas pela polícia, o traficante aparece com uma submetralhadora improvisada. “Quem mais sofre com tudo isso é a comunidade. Algumas pessoas são expulsas e suas casas transformadas em ponto de venda de droga”, confirma o delegado.

Mica: R$ 5 mil para olheiros

Em Vera Cruz, Mica é tido pela polícia como um bandido extremamente perigoso. “É frio e calculista. Conversando, ninguém dá nada por ele. Mas, para mandar matar, é daqui pra ali”, informa o delegado Geovane Paranhos, titular da 24ª Delegacia (Vera Cruz), que já prendeu Mica, há quase um ano. “Saiu com autorização da Justiça”, lamentou. Segundo ele, Mica tem “uns 20 homens de confiança, sem falar nos outros, do baixo escalão, e olheiros”. Ao traficante, são atribuídos mais de 20 homicídios. 

Mica comanda o tráfico na localidade do Alto do Riachinho, em Mar Grande. Há dois meses, um rádio comunicador transmitiu o Alfa 11 — código que indica quando há uma situação de risco de perigo a um policial. O alerta levou uma guarnição da PM até uma ladeira estreita de terra batida e cercada de matagal. Mas a viatura com quatro policiais não seguiu em frente: deu ré sob uma saraivada de balas. 

“O local era muito apertado. A viatura não tinha como manobrar”, relatou um policial do Serviço de Investigação da 24ª Delegacia. Eram cerca de 20 bandidos com metralhadoras que vigiavam a área. O Alfa 11 era para alertar sobre um policial que veraneava na casa de um amigo e foi descoberto, mas conseguiu escapar do cerco da quadrilha.

Segundo o delegado Paranhos, Mica, atualmente do BDM, já foi parceiro de Adilson. Os dois faziam parte da mesma facção, Caveira, que criou a BDM para ser uma extensão, mas se desvinculou há um ano. 
Em abril de 2014, numa briga entre integrantes da quadrilha, em Marcelino, Mica atirou contra o desafeto, mas acertou Ana Paula França dos Santos, namorada de Adilson. “Ela estaria grávida de três meses”, contou o delegado.

A droga vendida por Mica é trazida do Sul da Bahia e de outros estados. “Nosso setor de investigação apurou que já chegou carregamentos de Goiânia. Em julho de 2015, prendemos uma jovem que chegou com um quilo de cocaína numa mala. Ela veio de Porto Seguro de ônibus”. 

Segundo Paranhos, o fluxo de drogas na região é intenso. “Apreendi um garoto de 15 anos que disse que recebia R$ 50 por dia, R$ 10 de almoço e folgava no domingo. Trabalhava das 7h às 19h, ele e mais sete. Das 19h até 7h era outro grupo. Só com olheiros, Mica tem um custo mensal de uns R$ 5 mil”, contou.

Billy: por fora

A região de Tairu é também área da 24ª Delegacia, em Vera Cruz. A praia, próxima ao Recôncavo, sofre com a influência da facção Katiara, de Nazaré das Farinhas. O gerente do grupo criminoso em Tairu, Billy, assim como Mica, é procurado pela polícia. 

“Aquela região anteriormente tinha um tráfico independente, mas a Katiara vem se espalhando pelo Recôncavo e regiões vizinhas, como Tairu. E vem a cada dia aumentando o número de homicídios. Temos o nome dele associado a várias execuções na localidade”, pontuou o delegado Paranhos.
O que se sabe é que Billy está tirando proveito da guerra de seus rivais. “Enquanto se matam, ele está se espalhando. Soubemos que Caixa Prego também já é domínio dele”, relatou um agente da 24ª Delegacia. O exército do traficante é formado de adolescentes. “São jovens muito pobres e que têm o mesmo desejo de outros garotos da idade: ter um bom tênis, por exemplo, e acabam aliciados por Billy”, disse o policial.
Fonte: Correio

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